Mobilitas Acervo 2017-2023
Português

“Se queremos realmente ter um planeta saudável, precisamos trabalhar para fortalecer os transportes públicos”, disse a presidente Ester Litovsky, ao encerrar o encontro anual da União Internacional de Transportes Públicos (UITP), Divisão América Latina

Categoria: Matérias

Publicado em 19 jun 2022

8 minutos

“Se queremos realmente ter um planeta saudável, precisamos trabalhar para fortalecer os transportes públicos”, disse a presidente Ester Litovsky, ao encerrar o encontro anual da União Internacional de Transportes Públicos (UITP), Divisão América Latina

A presidente da União Internacional de Transportes Públicos (UITP), Divisão América Latina — a engenheira argentina Ester Litovsky, diretora da empresa Emova, operadora do Subte, o metrô de Buenos Aires — fez a explanação de encerramento da UITP Latin America Week 2022, assinalando, entre outros pontos, a importância dos transportes públicos para deter a mudança climática e o aquecimento global.

O evento internacional contou com 50 conferencistas e debatedores de diferentes países. Foram desenvolvidas sessões presenciais em São Paulo nos dias 6 e 7 de junho de 2022, as quais foram gravadas e transmitidas pela internet em 8 e 9 de junho. Clique aqui para conhecer a programação completa.

Conteúdos produzidos em função da UITP Latin America Week 2022 estão dispostos em plataforma digital e estarão disponíveis por um mês a contar de 10 de junho de 2022. Quem não fez sua inscrição para o encontro poderá fazê-lo e, assim, ter acesso aos conteúdos. Clique aqui para se inscrever.

PONTOS PARA REFLEXÃO

Qualificando os dois dias de sessões presenciais como “muito intensos”, e sublinhando que neles foram abordadas questões “que realmente nos interessam a todos”, Ester Litovsky fez um pronunciamento de cerca de dez minutos, indicando pontos para reflexão.

Mencionou inicialmente as dificuldades econômicas e sociais geradas pela pandemia, que ainda não acabou, às quais se somam as dificuldades trazidas agora pela guerra na Ucrânia. E citou a necessidade do estabelecimento de novos mecanismos para financiamento dos transportes públicos.

Lembrou, como foi dito durante o encontro, que a pandemia de Covid-19 expôs e exacerbou as desigualdades sociais e econômicas mais profundas, afetando mais principalmente aqueles menos capazes de se adaptar: as comunidades de baixos rendimentos, os idosos, as mulheres e as pessoas que vivem em assentamentos informais. E realçou que para além da pandemia, em 2022, começou a guerra na Ucrânia, “que novamente coloca o mundo no limite”.

Disse que a inflação, decorrente desse quadro, afeta a todos os países, especialmente quanto aos preços da energia e dos alimentos. E se observa a instabilidade financeira e a ruptura da cadeia global de abastecimento. “Nós, que operamos sistemas de transporte, não conseguimos recuperar a demanda perdida devido à pandemia e agora também somos atingidos por aumentos de custos”, afirmou, agregando: “A sustentabilidade dos nossos sistemas é fundamental para nossas cidades e nossos países, e para a sustentabilidade dos nossos cidadãos”.

MOBILIDADE MULTIMODAL

A presidente da UITP América Latina frisou que o transporte público deve ser a espinha dorsal da mobilidade nas cidades, considerando a importância da multimodalidade. 

Ela disse: “O transporte público tem de ser alimentado por outros meios. Claro que, neste momento, caminhar e andar de bicicleta são muito bem-vindos, mas, para os trechos mais longos — para a primeira e última milha —, precisamos estabelecer parcerias para complementar o transporte público”.

NOVOS MECANISMOS DE FINANCIAMENTO

Ester Litovsky lamentou que os sistemas de transporte público estejam vivenciando um grave problema financeiro. E disse, em razão dessa situação, ser “evidente” a necessidade de apoio. 

Lembrando o que disseram em sessões do encontro Mohamed Mezghani, secretário-geral da UITP ao nível mundial, e Claudia Acosta, especialista em Mobilidade na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), órgão da ONU, Ester Litovky assinalou a necessidade de haver a implantação de novos mecanismos para financiar o transporte público.

Citou como exemplo a taxa de congestionamento — também conhecida como pedágio urbano —, que pode ter a função de desencorajar o uso do carro, mas, também, fazer com que aqueles que não se sintam desencorajados acabem, ao usar os seus carros, ajudando a financiar o transporte público.

Mencionou ainda outros mecanismos que poderão levar recursos para os sistemas de transporte público, como a taxação de estacionamentos e de empreendimentos imobiliários que se beneficiam da existência do transporte coletivo nas cidades.  

CARROS ELÉTRICOS X METRÔS? NÃO!

Ester Litovsky afirmou que já se começa a ouvir — não ainda na América Latina, mas em outras regiões — que a ampliação da rede metrôs não é mais necessária, porque os carros elétricos vêm crescendo a um ritmo muito rápido e que, de certa forma — talvez sob o ângulo ambiental — tais veículos substituiriam a necessidade de sistemas massivos eletrificados de transporte público como o metrô.

A dirigente da UITP América Latina foi enfática ao garantir ser necessário combater essa tese. Ela diz: “A verdade é que isto é muito perigoso! Os veículos elétricos, claro, são um passo muito interessante a ser dado, muito útil, mas sabemos que o congestionamento viário não vai ser resolvido com carros elétricos. Sabemos que a taxa de acidentes também não vai ser resolvida com carros elétricos. Além disso, os transportes públicos desempenham um papel fundamental na justiça social e equidade para aqueles que menos têm. E os carros elétricos também não vão resolver isso”.

A dirigente acrescentou que esta é uma questão que merece a atenção do setor porque tais argumentações começam a acontecer, sendo necessário estar alerta para não prosperarem. “Devemos ser capazes de sensibilizar para o papel real dos transportes públicos nas nossas cidades”.

POLUIÇÃO DO AR

Outro ponto salientado por Ester Litovsky em seu pronunciamento disse respeito a um estudo publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2021, o documento em inglês denominado, em tradução livre, Custos econômicos da poluição atmosférica em Acra, Gana.

“Esse estudo afirma que a poluição atmosférica é o risco mais importante para a saúde ambiental no mundo de hoje, ainda mais agora, que tantas pessoas se estão se mudando para as cidades. E a Organização Mundial de Saúde sublinha o papel dos transportes públicos e a necessidade de estes serem sustentáveis, de modo a contribuir para a saúde da população. E vejam que quem está dizendo isso não somos nós, os defensores do transporte público, e sim a Organização Mundial de Saúde”.

MUDANÇA CLIMÁTICA

“Finalmente, aqueles que me conhecem sabem que eu nunca poderia encerrar um evento deste tipo sem falar sobre as alterações climáticas”, afirmou Ester Litovisky antes de avançar sobre esse tema.

Ela disse: “É claro que os transportes públicos são fundamentais para a preservação do nosso planeta. Para que o setor dos transportes ajude a manter o objetivo de fazer com que o aquecimento global se mantenha em 1,5 graus Celsius, todos os países devem contribuir. Isto não é apenas da responsabilidade dos países ricos. É da responsabilidade de todos. Nem é apenas da responsabilidade das grandes empresas, isto é da responsabilidade de todos”.

A dirigente lamentou o que é mostrado por um relatório publicado na semana anterior ao encontro da UITP América Latina, com dados do ano 2021: o volume de emissão de gases de efeito de estufa no ano 2021 foi um dos mais elevados da história da humanidade, tendo tido os piores parâmetros.

Afirmou que apesar da gravidade da situação descrita no relatório, o quadro não tem chamado à atenção dos dirigentes da maioria dos países para alternativas importantes. Sublinhou que a baixa consideração dos transportes públicos como fator de combate à emissão de gases de efeito estufa não surpreende porque,  olhando para o que aconteceu na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 26), realizada em Glasgow, Escócia, em novembro de 2021, verifica-seque apenas 30% das estratégias nacionais incluem o transporte público nos seus planos. E comentou: “Sabemos que isto é absolutamente insuficiente”!

Concluindo e considerando o quadro que acabou de descrever, Ester Litovsky afirmou: “Diante dessa situação, nós, da UITP, temos a responsabilidade de ensinar, de aumentar a sensibilização. Estamos fazendo, já fazemos isso há muito tempo e temos de continuar a fazê-lo e com muito mais força, porque, evidentemente, ainda não existe uma consciência global da importância do transporte público nesta matéria. Se queremos realmente ter um planeta saudável, precisamos trabalhar para fortalecer os transportes públicos”.

Não encontrou o que procura? Busque no acervo