Impactos da Covid-19 na inovação na América Latina, por Valeska Peres Pinto, coordenadora do Programa de Melhores Práticas de Mobilidade Urbana da UITP América Latina

O conteúdo deste texto foi apresentado na webinar promovida pela UITP no dia 30/03, como parte do Umii – Urban Mobility Innovation Index, patrocinado pela RTA – Road and Transport of Dubai.

1. Introdução

A América Latina foi o último continente a entrar na pandemia, então ficamos e estamos um passo atrás do mundo. Hoje, o continente vive o pior momento da pandemia.

Com altas médias diárias de mortes e um processo de vacinação lento, a recuperação socioeconômica pode ser mais difícil. Com cerca de 970 mil mortes, a América Latina se tornou o epicentro da pandemia.

Fatores como renda média, educação e sistemas estruturados de saúde eram insuficientes. É o caso do Brasil e do México. Outros que tiveram fraquezas também estão sofrendo – Peru, Equador, parte da Colômbia e Venezuela. Os países com melhor desempenho são Uruguai e Chile.

AMÉRICA LATINA EM NÚMEROS

Fonte: Relatório Cepal Março 2021

Países e populações.  20 países, 642 milhões – 81,2% da população urbana (1)

População ocupada por setores (2).  Serviços – 25,0%, Comércio – 24,7%, Agricultura – 17,3%, Indústria -11,4%, Construção civil – 07,3%, Serviços financeiros – 06,8%, Transporte – 06,1% e Outros -03,4%

Maiores cidades da América Latina por número de habitantes (3). >5,0 milhões = 7 – (São Paulo, Lima, México, Bogotá, Santiago, Rio de Janeiro e Caracas); 5,0 milhões < a > 2,0 milhões = 14; 2,0 milhões < a > 1,5 milhões = 9; 1,5 milhões < a > 1,0 milhão = 26

(1) Não estão sendo considerados os 26 Territórios que compõem o Caribe, que tem uma população de 11.678 milhões. Entre eles estão Porto Rico, Jamaica, Suriname, Trinidad e Tobago e Bahamas. (2) O emprego informal atinge a cifra de 48,5% (3) Se considerarmos a Região Metropolitana encontrou as seguintes com população superior a cinco milhões – México, São Paulo, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Lima, Bogotá, Santiago e Belo Horizonte.

A pandemia custou às operadoras de transporte público da região entre US $ 380 e US $ 400 milhões por mês, de acordo com o Banco Mundial. Levando em conta que estamos nesse processo há um ano, os números são assustadores para o setor. Desde o início da pandemia, entre 60% e 90% de dois latino-americanos pararam de usar ônibus, metrô ou trem por conta de medidas de confinamento e distância social, além do desemprego e mudanças no mercado de trabalho, principalmente devido à adoção do home office, telemedicina, e-commerce e educação a distancia, entre outras atividades.

IMPACTOS DA PANDEMIA EM ALGUNS PAÍSES

Fonte: UITP América Latina

Argentina – Bloqueio: 11/03 até 28/06; Redução da demanda de ônibus – 74% e de metros – 77%; em Buenos Aires: exigência de Certificado de circulação; Bloqueio suave em outras regiões começando em 08/06;

Voos Comerciais suspensos até 01/09/2020, suspensão retomada em 30/03/2021.

Brasil – Bloqueio: 18/03 – Demanda: 20% – Oferta – 75%; Bloqueio suave em alguns lugares desde 01/06 – Demanda entre 40-50% e oferta de 70-80%; o governo federal não liberou nenhuma assistência ao setor; Alguns governos estaduais e municipais deram algum alivio no econômico ou tributário.

Chile – Bloqueio: 18/03 suspenso em 20 de maio; Demanda aumenta para 70% no metrô e 50% no sistema de ônibus. Bloqueio retomado no dia 01 de junho. Em negociação condições contratuais especiais que possibilitem o pagamento dos km percorridos durante a pandemia.

Colômbia – Obrigatoriedade de redução da lotação de veículos a 35%.  Nenhuma alternativa econômica e financeira foi criada.

Dezembro 2020 foi autorizado 70% de ocupação para os sistemas de BRT, metrôs e metrocables.

Equador – Uso obrigatório de máscaras em atividades que voltam à normalidade. Foram retomadas as obras da construção do Metrô de Quito.

México – Bloqueio desde 30/03. Demanda: Bus: 20% e Metro: 23%. Edição do Plano de Mobilidade 4S – Saudável, Seguro, Sustentável e Solidário. Nenhum apoio econômico e financeiro foi dado as empresas.

Uruguai – Bloqueio desde 03/11 – Demanda: 20%; Fechamento suave: 25/05 – Demanda: 40% Flota: 70%. As escolas regressaram em julho. Na primeira semana do bloqueio saiu um pacote de resgate econômico.

2. A Covid-19 foi um fator acelerador de soluções, principalmente no processo de digitalização em diversas atividades sociais e econômicas.

•             As soluções digitais estão sendo vitais durante a pandemia para fazer as atividades essenciais funcionarem. É importante registrar o aumentodo uso da internet e APPs para em diversos segmentos, com impacto direto na mobilidade urbana. Destacamos os mais impactados:Home Office  + 324%; e-comerce  + 157%; educação á distância e cuidados básicos de saúde  + 62%

•             Processo semelhante está ocorrendo no setor de transporte público e na gestão de tráfego por meio de Centros de Controle de Mobilidade como Rio de Janeiro, Campinas, São Paulo, São José dos Campos e muitos outros.

•             Aconteceu também no apoio ao uso da bicicleta nos deslocamentos diários, com ampliação da infraestrutura de ciclovias e uma ampliação do uso de bicicletas na região.

•             O sistema de cobrança e pagamento de tarifas com tickets eletrônicos já foi amplamente implantado na América Latina. Os cartões inteligentes estão implementados em mais de 80% dos sistemas da região. Estão implantados nas 56 cidades com mais de 1 milhão de habitantes, incluindo as cidades com mais de 5 milhões – México, São Paulo, Lima, Bogotá, Rio de Janeiro e Santiago do Chile.

•             A novidade em relação à bilhetagem foi a sofisticação dos APPs, alguns já existentes e outros apenas implementados. O APP começou a integrar informações de passageiros e rotas.

•             Apesar das limitações na infraestrutura das redes de comunicação e, dadas as desigualdades socioeconômicas da região que mantém muitos segmentos sociais desassistidos, o acesso às mídias digitais tem crescido nas áreas urbanas, onde vivem 80% da população total da região A COVID-19 também tem sido um acelerador de medidas voltadas para a proteção e privacidade de dados e governança da Internet. No Brasil, por exemplo, a Lei de Marco Legal da Ciência e Inovação, aprovada em 2016, teve sua implantação acelerada, bem como a implantação da tecnologia 5G passou a ser prioritária.

•             Em 2020, verificaram-se retrocessos na utilização do “transporte partilhado” e do “transporte on demand”, que podem ser atribuídos a medidas de distanciamento social, que podem ser provisórias.

3. As principais inovações para a mobilidade urbana na América Latina, muitas delas em processo de implantação, são:

•             Disseminação do uso de instrumentos digitais para melhorar o  conhecimento dos clientes e dos perfis de viagens, fato impulsionado pela utilização destes instrumentos pelas autoridades sanitárias, na gestão da mobilidade urbana para efeitos de controlo epidemiológico.

•             Isso deve afetar o o processo de planejamento e de gestão do setor e estimular a criação de Banco de Dados alimentados diariamente durante a operação dos serviços, como pode ser observado no Consórcio Metropolitano de Goiânia (Brasil) e  no Metro de Medellin ( Colombia), entre outras.

•             Os APPs de bilhetagem estão começando a se tornar uma ferramenta de integração de informações. Os APPs passaram a se configurar como meio de comunicação com o passageiro, dando tanto informações sobre a ocupação do sistema quanto o roteiro. Isso tem acontecido amplamente no Brasil, nas regiões metropolitanas de São Paulo, Curitiba, Vitória e muitas outras.

•             Promoção da comunicação profissional dirigida a clientes externos e internos, bem como em relação aos meios de comunicação tradicionais e redes sociais;

•             Inclusão nos planos de mobilidade urbana de serviços de circulação de mercadorias e delivery, que vem ampliando o uso de veículos de pequeno porte e motocicletas com reflexos diretos no trânsito;

•             Lançamento de soluções ainda como pilotos de “transporte coletivo sob demanda”, captando demandas não atendidas e que podem ser essenciais para a recuperação do setor como um todo. É o caso da Cidade do México e no Brasil – Goiânia, Fortaleza e São Bernardo do Campo.

•             Embora o setor de Transporte Público da região seja sustentado pelo uso de ônibus e consumo de combustíveis fósseis, já existem exemplos de países nos quais operadoras apoiadas por políticas públicas estão procedendo à eletrificação de seus sistemas de ônibus – Santiago (Chile), Bogotá (Colômbia) e Montevidéu (Uruguai)

4. A pandemia também pode gerar resultados benéficos para a mobilidade urbana a médio prazo:

•             Autoridades e operadores dos diferentes modais – ônibus, metrôs, ferrovias -admitem a necessidade de mudanças no modelo regulatório e de negócio, que levem em conta a sustentabilidade económica do setor, de forma a fazer face à insatisfação dos seus clientes e à entrada de novos concorrentes;

•             Muitas autoridades e operadores reconhecem a necessidade de atuar de forma coordenada entre modais ou transportes a nível territorial (cidades e regiões) a partir da criação de plataformas digitais que visem integrar todas as atividades, numa perspetiva de MaaS.

•             Autoridades, operadores e consultores apontam para a necessidade de novos parceiros de investimento público e privado, vistos como dificuldades fiscais para os governos locais.

5. A inovação terá um papel estratégico no desenvolvimento futuro da mobilidade urbana. Alguns sinais podem ser observados:

•             Autoridades, operadores e acadêmicos consideram que o cenário pós-Covid-19 será diferente para todos os segmentos da economia e da sociedade.

•             Os operadores de transporte público, tanto de ônibus como do setor de trilhos,  já trabalham com um contexto de queda da demanda pelo serviço e, portanto, precisam reduzir custos e aumentar a produtividade do setor.

•             Acadêmicos, consultores e organizações não governamentais ainda apontam para o impacto das pressões dos consumidores por melhores serviços e tarifas reduzidas. Na falta disso, a redução de passageiros pode aumentar.

•             Considerando o estado atual da pandemia, precisamos ser cautelosos com as mudanças que serão permanentes. No entanto, existe um consenso – a inovação tornou-se uma obrigação, uma necessidade real.

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