Com base em estudo técnico, associação que congrega empresas brasileiras do setor de ônibus urbanos afirma que o transporte coletivo não está relacionado com o aumento de casos de Covid-19

A Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) – que congrega empresas brasileiras  do setor de ônibus urbanos – divulgou na terceira semana de setembro de 2020 os resultados de um estudo técnico que avaliou os dados coletados do número de passageiros transportados em 15 grandes sistemas de transportes públicos urbanos por ônibus no Brasil e a incidência de casos confirmados de Covid19 nas mesmas cidades.

Os sistemas de transporte examinados atendem a 171 municípios e realizam mais de 325 milhões de viagens de passageiros por mês, ou 13 milhões de deslocamentos diários de pessoas. Isso corresponde a 32,5% do total de viagens de passageiros realizadas em todos os 2.901 municípios brasileiros atendidos por sistemas organizados de transporte público por ônibus (IBGE, 2017).

O estudo concluiu que não há evidências de que o aumento do número de passageiros transportados levou a um aumento do número de casos.

Intitulado Análise da Evolução das Viagens de Passageiros por Ônibus e dos Casos Confirmados da Covid-19 (somente em português) e acessível por meio de link ao final desta matéria, o levantamento teve como base a variação da demanda por transporte, calculada pela NTU, e os dados do SUS (Sistema Único de Saúde) – serviço oficial brasileiro – durante 17 semanas, entre as semanas epidemiológicas 14 e 30, de 29 de março a 25 de julho de 2020.

A NTU explica que os dados do SUS foram agregados em semanas epidemiológicas para que fossem estabelecidos os mesmos referenciais às demandas de viagens realizadas por passageiros no transporte público por ônibus.

No total, foram considerados 255 registros de informações dos sistemas de transporte público coletivo. Não foram encontradas evidências de que o aumento do número de passageiros transportados levou a um aumento da incidência de casos confirmados de Covid-19.

Em algumas cidades, o aumento da demanda por transporte coincidiu com a redução do número de casos confirmados, enquanto em outras a redução do número de passageiros do transporte coletivo aconteceu simultaneamente com o aumento da incidência de casos.

SEM EVIDÊNCIAS

“Os dados coletados revelam que não há evidência de que o maior número de passageiros em ônibus leva a um maior risco de disseminação da Covid-19. O transporte público por ônibus urbano não pode ser apontado como responsável pelo aumento do número de casos, não há uma relação entre uma coisa e outra. Podemos dizer que o transporte público coletivo urbano é seguro se todos tomarem as devidas precauções”, disse o  presidente-executivo da NTU, Otávio Cunha, explicando que a entidade vem monitorando o risco de transmissão da Covid-19 no transporte público desde o início da pandemia.

O presidente aponta quais seriam as condições básicas para manter em patamares reduzidos o risco de contaminação: “Se motoristas, cobradores e passageiros usarem máscara dentro do ônibus e nos pontos de parada, se as pessoas evitarem conversar e se os veículos trafegarem sempre com janelas abertas, o risco será baixo”.

Otávio Cunha lamenta que o transporte coletivo tenha sido condenado por alguns formadores de opinião como foco de disseminação do coronavírus. “Criou-se um senso comum de que o uso do transporte coletivo expõe ao maior risco de contágio e isso tem assustado as pessoas, influído no funcionamento do sistema de mobilidade urbana das cidades e prejudicado a realização de atividades essenciais”.

Ele enfatiza: “Hoje, conhecemos melhor os fatores relacionados à disseminação e as medidas que devem ser tomadas para a minimização destes riscos à população. Queremos preservar a saúde de passageiros e colaboradores, além de garantir o acesso ao transporte público, atividade essencial à economia e à vida de milhares de brasileiros que dependem desse serviço para sua locomoção”.

PROTOCOLOS SEGUIDOS

Outro aspecto enfatizado pela NTU é que, conforme afirmam estudos médicos recentes, o risco de transmissão para indivíduos assintomáticos está relacionado a fatores como o tempo de permanência nos ambientes, ventilação de ar, distanciamento, uso de máscara, higienização das mãos e a dispersão de gotículas durante a fala, e pode ser substancialmente reduzido caso sejam adotadas medidas preventivas que constam dos protocolos sanitários adotados pelas empresas operadoras, tais como: obrigatoriedade do uso das máscaras a bordo, limpeza regular dos veículos e aumento dos níveis de ventilação.

Quanto a esses pontos, Otávio Cunha garante que a NTU vem orientando e acompanhando as ações de sanitização e higiene adotadas pelas empresas do setor desde o começo da pandemia.  “As empresas, em parceira com o poder público, estão realizando a limpeza dos ônibus seguindo os protocolos sanitários indicados pelo Ministério da Saúde”.

METODOLOGIA

O estudo analisa 15 sistemas de transportes: Belém-PA, Belo Horizonte-MG (municipal), Belo Horizonte-MG (intermunicipal metropolitano), Curitiba-PR, Curitiba (intermunicipal metropolitano), Fortaleza-CE, Goiânia-GO, Macapá-AP, Natal-RN, Porto Alegre-RS, Recife-PE,  Rio de Janeiro-RJ (municipal), Rio de Janeiro (intermunicipal metropolitano), Vitória-ES e Teresina-PI.

A análise foi realizada comparando-se os casos confirmados de Covid-19 observados sete dias após a demanda transportada, considerando que, em caso de contaminação do passageiro durante a viagem, este seria o prazo médio entre a eventual infecção e a detecção da contaminação por testes. Não foi observada associação entre o número de passageiros transportados por ônibus e o aumento do número de casos.

O levantamento cita, por exemplo, o sistema de transporte coletivo urbano de Teresina-PI, onde a quantidade de viagens realizadas nos ônibus sofreu forte queda nas sete primeiras semanas epidemiológicas.

Nesse período, observou-se um aumento progressivo dos casos confirmados de Covid-19, sendo que, no período de 15 de maio a 6 de julho, houve greve dos rodoviários, com paralisação total da frota de ônibus. Mesmo sem transporte público verificou-se o crescimento dos casos confirmados da doença no período. A posterior normalização dos serviços de transporte coletivo coincidiu com a redução da incidência da Covid-19.

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